Por que este livro? Pe. Manoel Bernardes responde!

Certo poeta autor de uma comédia de tramóias introduziu no teatro uma figura do Sol mui galharda, e resplandecente, com roupas recamadas de jóia, de diamantes, e diadema amplíssimo de dourados raios, e nos tirantes da carroça em que ia entronizada pegavam doze figuras em forma de Ninfas, símbolo das doze horas que o Sol descreve, quando toca no equinócio. Das quais figuras, umas eram de maior estatura, outras de mediana, e outras mais pequenas conforme se ofereceu achá-las. Perguntado pela razão desta diferença tão imprópria ao intento presente, visto que as horas todas são iguais, respondeu remediando com a discrição o que não pudera com a diligência: Senhores, as horas mais pequenas são as da Oração, e do servir a Deus: as medianas são as dos negócio: e as maiores são as de dormir, comer, folgar e dar-nos a passatempos.


REFLEXÃO

E razão da obra ao benévolo leitor.


[A]ssim passa, na verdade. Todos o reconhecemos, raros o emendamos. Está uma pessoa ouvindo Missa, meia hora o cansa, e atormenta, e faz romper em murmurações. Está na casa do jogo, ou no pátio das comédias, toda a noite ou toda a tarde lhe parece breve. Vai confessar-se, parece-lhe que desbarata o tempo dos seus negócios, se o confessor não o admite logo: já confessado, anda buscando em que passar as horas, e as consome como Epicuro em regalos sensuais, ou como Momo em conversações detrativas, ou como Mercúrio em levar, e trazer rumores vãos: Libet fabulari, inquit, donec hora praetereat. (Diz São Bernardo em nome de um destes:) Gosto de conversar enquanto se passa a hora. E admirando-se logo desta resposta estulta, acrescente: O, donec hora praetereat, quam tibi ad agendam poenitentiam, ad obtinendam veniam, ad acquirendam gratiam, ad promerendum gloriam miseratio Conditoris indulserat: Ó, enquanto se passa a hora! A qual te concedeu a misericórdia de teu Criador, para fazeres penitência, alcançarmos perdão, adquirires graça, e mereceres glória.

Para o intento, pois, de que as horas de oração não fossem tão breves, já ocupamos a pena em outras obras; nesta pretendemos que as de passatempo não sejam tão longas; porque a lição [do latim lectio, leitura] honesta é um dos proveitosos empregos que lhes podemos dar. Da que eu tive nos anos atrasados [isto é, passados], havia recolhido vários Apotegmas (isto é, ditos breves, e sentenciosos de varões ilustres): porque me agradava achar neles uns cânones, ou regras familiares, e domésticas, que penetrando o ânimo com sua breve agudeza, desatam ligeiramente os nós dos negócios, ou lances duvidosos, como ponderou o político filósofo Francisco Bacônio [o inglês Francis Bacon]:  Neque Apophtegmata ipsa ad delectationem et ornatum tantum prosunt; sed as res regendas etiam et ad usus civiles; sunt enim veluti secures, aut mucrones verborum, qui rerum, et negotiorum nodos acumine quodam secant, et penetrant. Pareceu-me pois dá-los à luz, e utilidade pública em volume pequeno. Porém depois, por conselho de algumas pessoas entendidas lhes fiz suas reflexões, nas quais achando ao revê-las mais substância, e que nos mesmos apotegmas não duvidei acrescentá-las também por conselho alheio. Donde me veio a mudar-se o acessório em principal, e pedir muitos volumes de quarto o que, a princípio intentava somente um só de oitavo.

Levei a mira em meter nos ânimos que não gostam de lição puramente espiritual ditames sãos, verdades sólidas, exemplos doutrinais, envolvendo tudo em outras notícias curiosas, para que, em companhia do suave, entrasse o útil. Se acertei na têmpera, não me toca julgá-lo. Afetei que estas sentenças fossem quase todas de autores cristãos; porque me indignava de que só as dos Gentios (recolhidas já por Catão, Plutarco, e Manúcio) subissem aos púlpitos, e entrassem nas conversações dos discretos. E suposto que estas muitas vezes são breves, redondas e sonoras, contudo não encerram tanta luz, e substância de verdades, e por conseguinte não me serviam tanto para fundar as reflexões, e todavia algumas vezes deixei entrar, para maior variedade da obra, e por não mostrar, que de todo a desprezava.

Vão distribuídas por lugares comuns do Abecedário; porque a miscelânea não prejudicasse à boa ordem: sei, que não fizeram assim os sobreditos três autores, nem João Botero, e o autor do Democritus ridens: porém são obras mais pequenas, e sem parergos [acrescentamento, ornato], nem excursos: além de que Lourenço Beyerlinch, e Conrado Lycosthenes também alfabetaram as suas: do padre Lyreo não sei que forma seguiu, porque o não pude haver à mão. Foi discuriosidade minha não citar as fontes donde as tirava: porém naquele tempo não meditava o uso delas público, se não somente o meu particular, e asseguro ao leitor que não são inventadas, nem adulteradas por mim como fazem alguns poetas modernos, que não lhes acudindo a musa com conceitos para determinado assunto, fingem o assunto para seus determinados conceitos. 

Querendo o leitor buscar algumas notícias para seus particulares usos, não recorra só à tábua dos Títulos, ou lugares comuns, se não principalmente ao Índice geral das matérias: porque as diversas linhas, que não procedem de qualquer deles, levam a doutrina para mui diferentes lugares. Outro terceiro Índice  dos varões ilustres, cujas são as sentenças, se reserva para o fim da obra. E não é pequeno louvor deste gênero de doutrina dada por respostas sentenciosas, que até MARIA Santíssima Senhora nossa, e Cristo seu precioso Filho, e Sabedoria do Eterno Pai pudessem, se quiséssemos, autorizar o dito catálogo. Da Senhora, (que por antonomásia só por ela é a Senhora; e isso quer dizer seu dulcíssimo nome de MARIA) se escreve que fazendo uma pecadora pública oração por uma serva de Deus, apareceu com seu benditíssimo Filho nos braços, o qual lhe dizia: Olhai, Mãe minha, como a pecadora pede pela Santa! Ao que a Senhora respondeu:  Pois, Filho meu, por amor da Santa, fazei também santa a pecadora. De Cristo nosso Salvador há muitos apotegmas no Evangelho, de que apontamos aqui um só por exemplo. Quando os fariseus maliciosamente lhe perguntaram se era lícito dar tributo a César, disse o Senhor que lhe mostrassem a moeda do censo, e perguntou cuja era aquela imagem, e letreiro que tinha, e dizendo eles que de César, respondeu: Pois dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Tenho dado vista da matéria, forma, e fim da obra: dos defeitos dela, mais ao certo a dará o Leitor. Dizia um fidalgo deste reino (D. João de Menezes, um dos primeiros tangerinos), que três coisas cuidava o homem que tinha e não as tinha: a saber, muita paciência, muita ciência, e muita benevolência nos amigos. Se pois o meu leitor experimentar em mim esta segunda falta, que é a da ciência, e eu nele a terceira, que é a da benevolência, recorramos ambos a emendar a primeira, que é a da paciência. 

Vale.


Comentários

  1. Boa tarde, gostaria de ajudar no projeto, eu já estou com um pequeníssimo avanço porém já é um começo (pode verificar o meu progresso no meu perfil do instagram @sacramentum.caritatis). Continuação de um bom trabalho no seu apostolado 🙏🏼

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